Relato de parto
Quando a vida me fez doula
Alguém que conheci costumava dizer que precisamos nos manter interessantes para nós mesmas... E vejo muita sabedoria em buscar gostar de si e da vida que se leva, mas, às vezes, não é uma questão de um esforço nessa direção, mas sim de seguirmos o fluxo que se apresenta e abraçarmos os convites do caminho.
Era sexta-feira, final de tarde, eu estava em casa diante do que parecia ser um final de semana sereno e sem muitos acontecimentos. Coloquei o filme Rental Family (Disney+) para assistir, fiz uma pipoca e me joguei no sofá.
Alguns minutos depois, já absorvida pela história, meu marido chega anunciando que nossa amiga já estava na maternidade, em trabalho de parto. A data planejada era dali a uma semana. Mas, com o humorista Nando Vianna e que aprendi nos bordados da Bruna Antunes do Bordado Empoderado, a vida não está nem aí para o seu planejamento. Nem o meu, nem o de ninguém. E, como na vida de imigrante os amigos se tornam nossa família, nos colocamos à disposição para ir até eles.
Após uma correria inicial, coloquei na mochila o que poderia precisar, me arrumei e partimos para o hospital. Ao chegar lá, entendi que, na verdade, o parto estava sendo induzido, pois havia pouco líquido amniótico e a médica entendeu ser melhor antecipar do que colocar mãe e bebê em risco.
Quando cheguei, mãe e pai ainda estavam tentando processar que a neném, que chegaria uma semana depois, estava a apenas algumas horas de distância de seu primeiro respiro neste mundo.
Entre medicações, checagem de dilatação, começamos a conversar, rir, aliviar a tensão rumo ao desconhecido. Minha ideia inicial era ficar até às 22h. Mas, diante de um pedido da mãe e de uma milagrosa e até fácil autorização do hospital (por aqui a regra é que somente uma pessoa pode ficar como acompanhante), escolhi passar aquela madrugada com eles.
As contrações aumentavam, as medicações fazendo efeito. Pai e mãe em constante oração em árabe, eu falando inglês e as enfermeiras migrando do Nederlands para o inglês constantemente. A primeira enfermeira disse que a bebê nasceria na tarde de sábado. Mas, sabendo que estávamos em uma lua nova ariana e com tantos planetas em Áries naquela noite, apenas sorri, e minha intuição bateu forte. “Se prepare para às 06h da manhã”, a voz interna e conhecida, que traduzia as informações da equipe espiritual, me disse claramente.
No meio da madrugada, perguntei ao casal como queriam fazer em relação ao parto em si. E eles disseram que gostariam que eu acompanhasse tudo. Mais uma vez, confirmei com a equipe hospitalar e mudei de planos. Ao invés de assistir Rental Family, lá estava eu, prestes a testemunhar o primeiro parto da minha vida, que também era o primeiro parto do casal e da mãe. Todos marinheiros de primeira viagem.
Não pude deixar, entre uma contração e outra, entre massagear a mãe, caminhar, conversar com o pai, de pensar no ciclo da vida. Em 2025, três pessoas da minha família paterna morreram, sem que eu pudesse estar presente nos ritos de despedida; em 2026, eu assistia ao nascimento de uma das pessoas da minha família de escolha.
A mãe, que também é mulher, amiga, irmã, esposa, estudante, profissional, pessoa, ficava cada vez mais gigante. Entre uma contração e outra, bravamente vivia as ondas de seu corpo, se entregando ao processo de dor e renascimento. Sua primeira vez, cheia de emoção, surpresa, inesperado. Mas de uma coragem e entrega tão palpáveis. Entre apertar nossas mãos, socar a maca, gritar de dor para logo em seguida entregar um sorriso doce e cheio de esperança, enfrentou a noite com a coragem e a inocência de todos que encaram um rito de passagem pela primeira vez. Em algum momento, pediu pela epidural e se sentiu menor por isso. Fiz questão de que ela soubesse quão gigante e incrível ela já era, e que passar pelo processo de forma mais suave também era caminho. Outra vez gigante, diante daquela agulha inominável, ela encarou tudo sem reclamar, abraçando seu próprio destino.
O pai, passado o susto inicial e a adaptação para uma filha que já chegava em seu próprio tempo e sob suas próprias regras, encontrou um caminho de leveza e suporte. Falando cada vez mais sussurrado, recitando o Alcorão junto de sua amada, cuidando das burocracias, filtrando telefonemas, reorganizando a agenda, preparando tudo para que as protagonistas da noite pudessem existir em segurança e amor.
Eu não era necessária. Eles fariam o processo sem mim. Mas, uma vez que a vida me colocou ali, trouxe minha maleta de medicinas entre cantos, partilha de histórias, silêncios compartilhados e mãos sempre disponíveis para serem apertadas, dar suporte ou apenas um carinho leve. A avó da bebê deixou claro que ali eu representava toda a família que estava no Sudão. Me abri para essa constelação familiar em tempo real e carreguei comigo a força e sabedoria das avós, trazendo um porto seguro em meio às ondas de dor e preparo para a chegada da pequena.
Às seis da manhã, toda a equipe se apresentou ao quarto. O coração da bebê começou a perder força nas batidas; tudo havia sido rápido demais, as enfermeiras não paravam de falar isso. Internamente, eu sorria: uma ariana de ascendente em Touro estava ali fazendo o seu melhor — um cochilo antes da corrida. Quarenta minutos depois, o coração se estabeleceu e, num expulsivo que durou menos de dez minutos, testemunhei a chegada da pequena ao mundo. Reclamando, chorando, respirando, querendo colo de mãe. Uma mãe exausta, em choque, em êxtase. Um pai que cortou o cordão umbilical e fez questão de guardar a primeira toquinha da filha. Que me disse, num sussurro determinado, que queria pegar mulher e filha e ir para casa naquele mesmo instante.
Nos abraçamos. Chorei. Estava em choque, cansada — uma noite em claro após os 40 anos não é assim tão simples de viver. Também respirei com a bebê, meu primeiro suspiro após testemunhar um parto, finalmente a tensão deixando o corpo. Tudo que era promessa agora era realidade. Me dei conta, com todo respeito por essas incríveis profissionais, de que as circunstâncias da vida me fizeram doula. E, vendo a beleza de uma mãe com a filha nos braços, compreendi que, onde quer que eu vá, sempre existirá um círculo de mulheres. Guardiãs da Vida, enquanto os homens, Protetores do tempo, sustentam o espaço para que possamos ser portal do sagrado no mundo.
Agradeci a sabedoria do Círculo das Guardiãs, das histórias de todas as mulheres que acolhi e conheci ao longo da vida. E, se a ideia é permanecer interessante, sinto que preenchi mais um capítulo de uma vida próspera e maravilhosa. Se eu precisava de um sinal para confirmar a abertura do Círculo das Guardiãs em seu terceiro ano, recebi bem mais que isso. Vivi um ritual inteiro, completo, transformador, curativo e profundo, que só poderia ter sido um presente da Guardiã do Grande Mistério.
Abençoada é Ayla e sua família. Seu nome significa luz da lua em algumas culturas e aquela que dança em outras, e certamente ela já chegou nos convocando a dançar em seu próprio ritmo sob a luz do luar. Um agradecimento especial aos pais de primeira viagem, que tão generosamente partilharam essa experiência comigo. Que toda mulher nasça sabendo que não está sozinha, que toda família encontre suas guardiãs pelo caminho.
PS: a bebê da foto foi criada com IA para proteger a imagem e a energia da neném real neste momento de chegada ao mundo. 💚🌿




Que emoção. ❤️🌷