Aquilo que nos move
A potência de nossas paixões
Recentemente voltei a dançar.
A dança tem esse poder curioso: quando o corpo começa a se mover ao som de uma música que nos atravessa, algo dentro também se reorganiza. A respiração muda, os pensamentos desaceleram, e por alguns minutos a vida parece encontrar novamente um eixo.
O interessante é que eu passei anos esperando o momento perfeito para retomar essa paixão desde que me mudei para a Europa. Imaginava que voltaria quando encontrasse o ritmo que mais gosto, uma turma perto de casa, horários compatíveis com a rotina, preços acessíveis. Uma combinação quase ideal.
Enquanto isso, a coisa mais simples de todas ficava esquecida: mexer o corpo ao som de uma canção.
Percebi que muitas vezes fazemos isso com várias coisas que nos fazem bem. Criamos uma lista invisível de condições ideais que precisam existir antes de começar. Claro que essas condições seriam maravilhosas. Mas a vida raramente começa pela perfeição.
Queremos desenhar, mas esperamos o lápis perfeito.
Queremos cantar, mas achamos que precisamos ter uma voz incrível antes de deixar alguém ouvir.
Queremos começar algo novo, mas esperamos que tudo esteja organizado, preparado e pronto.
No fundo, é como querer sair de um poço sem antes aceitar que é preciso entrar nele para encontrar o impulso que nos leva para fora.
Essa virada começou em um dos rituais do Círculo das Guardiãs. Durante uma partilha, uma das mulheres contou sobre sua relação com a dança de uma forma tão natural e expressiva que algo em mim despertou. Quando terminei o encontro, fui para a cozinha e dancei sozinha, apenas pelo prazer de sentir o corpo em movimento.
Depois disso, procurei algumas aulas online gravadas que combinavam com meu ritmo de vida e com o que era possível naquele momento. Não era o cenário ideal que eu havia imaginado por tantos anos. Mas era o suficiente para que o corpo começasse novamente a produzir aquilo que o movimento traz: alegria, presença e vitalidade.
Julia Cameron, em O Caminho do Artista, propõe um exercício simples e poderoso chamado páginas matinais — escrever livremente logo ao acordar como forma de desbloquear a criatividade e destravar aquilo que ficou represado dentro de nós. O gesto é simples, quase banal. Mas é justamente nessa simplicidade que algo começa a se mover novamente.
Às vezes não precisamos de grandes mudanças. Precisamos apenas permitir que a vida volte a circular.
Clarissa Pinkola Estés conta algo semelhante em Ciranda das Mulheres Sábias, ao narrar a tradição da dança das abuelas em algumas comunidades. Antes de um casamento, as mulheres mais velhas dançam ao redor do noivo. Não é apenas uma celebração: é também um rito de observação. Ali se revela se aquele homem consegue acompanhar o ritmo da comunidade, se sabe rir, se consegue sustentar presença diante da vitalidade feminina.
A dança, nesse caso, não é entretenimento. É linguagem da vida. Talvez por isso seja tão importante perguntarmos: o que nos move?
Nem sempre é algo grandioso. Às vezes é um gesto pequeno que ficou esquecido em algum momento da vida. Um prazer simples, uma paixão antiga, uma curiosidade que ainda pulsa. E se a pergunta não for “quando tudo estará perfeito para começar?”, mas apenas: qual é o próximo passo possível?
A vida muda quando voltamos a escutar aquilo que nos faz vibrar — mesmo que comece pequeno, mesmo que comece imperfeito. Muitas vezes basta dar o primeiro passo para que o corpo e a alma se lembrem do caminho. Se você também sente vontade de se mover nessa direção, entre no Círculo das Guardiãs e redescubra o poder de suas paixões.
Inspiração da Semana — Guardiã do Movimento
A Guardiã do Movimento lembra que a vida raramente se revela inteira de uma vez. Ela se mostra passo a passo, à medida que caminhamos. O importante não é dominar toda a estrada, mas permitir que o corpo e o coração entrem em movimento.
Como canta Jorge Drexler: “amar la trama más que el desenlace.”
Amar a trama mais do que o desfecho.
Porque muitas vezes é no meio da dança que descobrimos aquilo que realmente nos move.
Carinho e Magia daqui,
Clarissa Guelves ✨




